Criar filhos já é um desafio em qualquer lugar. Longe da família, ele ganha camadas novas. Não tem a avó para ficar com a criança quando ela adoece, nem a tia para dar um respiro no fim de semana. Os filhos crescem conhecendo os avós pela tela. E, aos poucos, falam outra língua na escola e trazem para casa uma cultura que não é a sua.
Para muitas mães e pais que moram fora, a maternidade e a paternidade vêm acompanhadas de solidão e de uma pergunta: o que eu estou passando para os meus filhos, e o que eles estão perdendo?
A rede que ficou do outro lado
No Brasil, criar filhos costuma ser um trabalho coletivo. Avós, tios, vizinhos e amigos formam uma rede que sustenta os pais nos momentos difíceis. Fora, essa rede muitas vezes não existe, e o casal, ou a mãe sozinha, carrega tudo.
Essa sobrecarga não é sinal de incapacidade. É uma consequência concreta da distância. Reconhecer isso ajuda a diminuir a cobrança e a buscar, no lugar onde você mora, formas possíveis de rede: outras famílias brasileiras, grupos da escola, pessoas de confiança.
Avós pela tela
As chamadas de vídeo mudaram muito a vida de quem mora fora. Os avós veem os netos crescerem, ouvem as primeiras palavras, participam dos aniversários. Ainda assim, a relação é diferente da convivência, e isso costuma doer nos dois lados.
Vale cuidar dessa relação com intenção: horários fixos de chamada, histórias contadas pelos avós, objetos que venham deles e tenham lugar no quarto da criança. O vínculo não depende só da presença física. Depende de a criança saber de onde vem.
Duas culturas dentro de casa
Filhos criados fora do Brasil vivem entre dois mundos. Na escola, uma língua, um jeito de se comportar, valores que às vezes contrastam com os de casa. Em casa, a cultura dos pais. Esse contraste pode gerar conflitos, principalmente na adolescência.
Não é preciso escolher entre as duas. As crianças costumam se sair melhor quando os pais respeitam a cultura em que elas estão crescendo e, ao mesmo tempo, compartilham com orgulho a própria origem, sem impor.
O que passa de uma geração para outra, mesmo longe
Na visão sistêmica, os filhos recebem muito mais do que aquilo que os pais ensinam de propósito. Recebem também o que não foi dito: as histórias da família, as perdas não vividas, as lealdades. E isso acontece mesmo a milhares de quilômetros.
Por isso, a relação que você mantém com a sua família de origem influencia os seus filhos. Se você carrega uma culpa não resolvida por ter partido, ou um conflito antigo com seus pais, isso pode aparecer na forma como você educa, ou em dificuldades que os filhos vivem sem saber por quê.
Culpa, cansaço e a mãe que faz tudo sozinha
Muitas mães brasileiras no exterior se sentem culpadas de dois lados: por terem tirado os filhos de perto dos avós e por não darem conta de tudo sozinhas. O cansaço vira irritação, a irritação vira mais culpa, e o ciclo se fecha.
Quebrar esse ciclo começa por reconhecer que você está fazendo algo difícil, sem a rede que teria no Brasil. E por se autorizar a pedir ajuda, contratar ajuda quando possível e baixar a régua em algumas coisas. Filhos não precisam de uma mãe perfeita. Precisam de uma mãe presente o suficiente.
Quando os avós discordam da criação
Mesmo de longe, os avós opinam. Acham que a criança está muito agasalhada ou pouco agasalhada, que come coisas estranhas, que fala pouco português, que tem regras demais ou de menos. E cada comentário, que perto seria só um palpite, a distância pode soar como crítica ao modo como você cria os seus filhos.
Na visão sistêmica, os pais são os responsáveis pelos filhos, e os avós ocupam um lugar de apoio. Quando essa ordem se inverte, e os avós passam a decidir ou os pais passam a se justificar o tempo todo, a relação fica tensa para todos, inclusive para as crianças.
Dá para acolher o carinho que está por trás dos palpites e, ao mesmo tempo, manter o seu lugar: agradecer, considerar o que faz sentido e seguir o que você e o seu parceiro decidiram. Os filhos se sentem mais seguros quando percebem que os pais estão firmes no próprio lugar.
A língua portuguesa como vínculo
Manter o português em casa é, para muitas famílias, uma forma de manter o vínculo com a origem. É a língua em que os filhos conversam com os avós, entendem as músicas da infância dos pais e, mais tarde, conseguem visitar o Brasil sem se sentir estrangeiros.
Ao mesmo tempo, não precisa virar uma cobrança. Cada família encontra o próprio equilíbrio. O importante é que a língua seja vivida com afeto, não como obrigação.
Um lugar para a família de origem na história dos filhos
Um gesto simples e poderoso é contar aos filhos de onde eles vêm. Mostrar fotos dos bisavós, falar da cidade em que você cresceu, contar como a família chegou até ali. Crianças que conhecem a própria história costumam se sentir mais seguras, onde quer que estejam.
Se criar os filhos longe da família tem trazido culpa, cansaço ou conflitos que parecem maiores do que deveriam, a constelação familiar online ajuda a olhar para o seu lugar entre a família de origem e a família que você está formando. Atendo em português, por videochamada. A primeira conversa é por minha conta.
Perguntas frequentes
É normal me sentir sobrecarregada criando filhos fora do Brasil?
É muito comum. Longe da rede familiar, o casal ou a mãe sozinha carrega tarefas que no Brasil seriam divididas com avós, tios e amigos.
Como manter o vínculo dos filhos com os avós a distância?
Com chamadas em horários fixos, histórias contadas pelos avós e objetos que venham deles. O vínculo depende também de a criança saber de onde vem.
Meus filhos precisam escolher entre a cultura brasileira e a do país onde moramos?
Não. As crianças costumam se sair melhor quando os pais respeitam a cultura em que elas crescem e compartilham a própria origem com orgulho, sem impor.
A minha relação com meus pais pode influenciar meus filhos?
Na visão sistêmica, sim. Culpas e conflitos não resolvidos com a família de origem podem aparecer na forma como você educa ou em dificuldades que os filhos vivem.
Vale a pena manter o português em casa?
Para muitas famílias, sim, porque a língua mantém o vínculo com os avós e com a origem. Mas funciona melhor quando é vivida com afeto, não como cobrança.